Tudo a ganhar

Em “Nada a Perder”, a biografia autorizadíssima de Edir Macedo, logo no inicio, ele coloca em questão a imagem do Cristo na cruz. A irmã retira a imagem da sala. É a primeira conversão. Mas é um pouco mais do que isso: já não se trata de chutar a Virgem Maria ou de dizer que imagens de santo são simplesmente imagens.

Trata-se de atacar a ideia de um Deus morto (ele o faz explicitamente). Macedo quer adorar um Deus vivo, não um palerma que acaba crucificado. Ok.

O que vem depois não deixa de ser uma crucificação em vida do próprio Macedo. Ele sofre nas mãos da primeira igreja neopentecostal que frequenta, depois nas mãos do cunhado, o R.R. Soares da TV, por fim dos políticos e dos bispos católicos em Brasília.

Ele é um perseguido.

Essa a imagem que o filme busca construir: a de um sobrevivente das perseguições.

Ao contrário de Cristo, que acabou na cruz e foi ressuscitar como filho de Deus etc. etc., Macedo não é filho de Deus, mas consegue sobreviver à perseguição e, portanto, mostrar-se apto a levar o seu povo.

Levar aonde?

Eis o que desde a compra da TV Record é fartamente explicitado: a Igreja do Reino de Deus é antes de tudo um projeto de poder.

Projeto que passa por impedir as perseguições ao povo neopentecostal, por triunfar sobre a Igreja Católica e, por fim, por tomar o poder mesmo.

Isso já está acontecendo, aliás: a dita bancada evangélica tem uma influência enorme nos desditados rumos do país, como se sabe. E o mais preparado dos velhos seguidores de Macedo, o bispo Crivella, já é prefeito do Rio.

Mas o essencial ainda é a diferença entre um Deus morto (e indiferente) e esse Deus macediano, em cujas mãos podemos segurar, com quem conversamos e discutimos.

Um Deus de TV, também, muito mais apto aos tempos atuais do que o velho Deus católico, aquela coisa distante, cheia de paramentos inúteis pelo caminho.

O filme não é grande coisa, mas não é pior do que a maior parte das produções populares. É novelesca, choramingas, cheio de ditas e desditas, de mães todopoderosas (embora não imaculada, a mãe de Macedo é decisiva em sua trajetória, segundo o filme).

Quem quiser pode rir. De tudo. Do arremedo de teologia judaica, das curas milagrosas, de tudo mais.

O problema é que a IURD hoje é dominante, carrega esse “povo de Deus”, dá umas esporadas aqui e ali em uns e outros, mas se mostra capaz de agregar todos eles.

Esse projeto de poder passa por destituir o catolicismo e seu deus distante, o que se tornou bem mais fácil depois do pontificado do João Paulo 2º, que no meu entender era uma besta quadrada, e depois do Ratzinger, que é um elitista (e nesse sentido próximo do protestantismo clássico).

Trago esses papas aqui porque o cinema é, por excelência, o domínio da imagem, portanto não é de espantar que o catolicismo tenha ali uma presença tão forte (Hitchcock, Buñuel, Rossellini, Pasolini, Scorsese etc.).

“Nada a Perder” prega a convertidos. Como se quisesse fixar, pelo martiriológio do bispo Macedo o triunfo sobre o martírio, o seu povo.

É um estágio.

Estágio de um projeto de poder. Claro, o catolicismo também é um projeto de poder. Mas ao menos já o conhecemos.

Vendo essa biografia parece um pouco que estou revendo “O Triunfo da Vontade”. A ideia não é tão outra. Apenas se trata de uma versão cinematográfica mais tacanha, adaptada à boçalidade do Brasil contemporâneo.

Não me espantaria se isso terminasse numa espécie de Exército Islâmico versão chanchada (mas não menos sangrenta). Isto é, versão Brasil.

Penso que a prisão do Eduardo Campos atrasou esse projeto. Mas ele está aí, vivo. Vivíssimo.

Desta vez com 4 milhões de bilhetes de cinema précomprados.

O que é isso? Lavagem de dinheiro? Esses procuradores e polícias federais não dão a menor bola, em todo caso. E aqui correm bilhões.

Fonte: https://cantodoinacio.wordpress.com/2018/04/04/tudo-a-ganhar/
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