Fim de estação, começo de estação

rodagigante

Com essa de fim de ano e as trapalhadas conexas, perdi as anotações que tinha feito sobre o fim de ano cinematográfico.

Resumo o básico: achei “Assassinato no Oriente Express” bobo. Não me lembro de mais nada para dizer a respeito, exceto que Kenneth Branagh acha que fazendo closes e mais closes de si mesmo as coisas serão mais interessantes.

Stars War novo – Desse eu gostei. Gostei do sucessor angustiado, hamletiano do Darth Vader, do fim Luke Skywalker, das presenças femininas. Me parece que Rian Johnson consegue dar um fôlego à série, que andava pedindo pelo amor de Deus para terminar.

Roda Gigante – Já começo de ano. Gostei bastante desse Woody Allen, que começa por fazer uma representação meio hiper-realista dos anos 1950, invade sem constrangimento o terreno do melodrama e depois se volta para a dramaturgia americana da época (Williams, O’Neill e tal). Mas o essencial, no meu entender, é que faz um filme em torno de basicamente quatro personagens (o narrador salva-vidas, o pescador, sua mulher, sua filha). Todos falam. Quase todos falam muito. Mas não falam com os outros. Não passam nunca do monólogo, nem que queiram. Estão fechados em si mesmos. Essa sequência de monólogos que conduz à tragédia me parece bem contemporânea: com os telefones móveis hoje em dia parece que cada um está só consigo mesmo, ainda que cercado de gente. A introspecção essencial é a norma. Woody pegou isso muito bem.

Teorema – Recebi a nova “Teorema”, talvez a única revista-revista de cinema do país, quer dizer, revista em papel e tudo mais.

Da morte de Jeanne Moreau (por Cacá Diegues) e Jerry Lewis ao novo Blade Runner e, sobretudo, ao grande marco da temporada, que foi o novo Twin Peaks, parece que tudo de importante está lá, inclusive uma visão dos Hong Sang-Soo do ano passado e uma entrevista fantástica com Jonathan Rosenbaum, um dos grandes críticos vivos de cinema.

Mas eu chamaria à parte o notável artigo do Heitor Augusto sobre “Corra!”. Não apenas porque traz uma bela visão do passado televisivo de Jordan Peele como por sua visão mesmo do filme.

Não gosto dessa reserva de mercado étnica que se pretende criar, segundo a qual só negro fala de negro, só mulher fala de mulher, só negro pode ter um entendimento da condição do negro etc. Esse papo pré-freudiano caquético a que alguns denominam lugar de fala. Acho deprimente, quando não reacionário. Isso é uma coisa. Outra coisa é a contribuição específica que a experiência de pessoas negras possam trazer à compreensão de um filme, de processos históricos etc. Me parece ser esse o caso (embora, sabemos, o autor pode muito bem escrever sobre negros, brancos, índios, extraterrestres com igual desenvoltura).

Tiradentes – Aliás, acho que pela primeira vez em muitos anos não sou convidado a ir a Tiradentes, para cobertura ou debate ou algo assim. Paranóia: será por que escrevi que o debate da Daniela Thomas foi uma coisa violenta, sem tato, sem educação, e que visava atingir a pessoa dela através do filme? Bem, está no youtube, só consegui ver uns minutos, quem tiver estômago dê uma olhada naquilo do começo ao fim. Em todo caso, espero que isso não tenha nada a ver com o comentário. Mas isso é coisa de paranoico. Seria uma mesquinharia incalculável e sobretudo incongruente com tudo o que esse festival tem sido até aqui.

Fonte: https://cantodoinacio.wordpress.com/2018/01/10/fim-de-estacao-comeco-de-estacao/
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