Twin Peaks, ainda

Alessandro Versignani realmente gosta de Twin Peaks, e em seu blog fornece uma explicação não só interessante como verossímil do final do novo Twin Peaks, associando-o a fatos do passado, inclusive, explicitando certos outros do presente.
O artigo chama-se, justamente, “o final explicado”.

E, no entanto, malgrado todo o cuidado, a percepção, memória e inteligência ali depositados, algo lhe escapa.

Fico com uma das muitas dúvidas que ainda tenho: que mundo paralelo seria esse?

Que existe, existe.

As pessoas mudam de nome, de cidade, de momento…

Um exemplo evidente do final: Cooper vai ao motel com sua Diane reencontrada.

Eles transam em um motel de estrada.

The Platters cantam “My Prayer”. Diane tem uma relação sexual dolorida, sofrida, como se não conseguisse chegar;

“Minha prece é para permanecer em você/ Ao final do dia em um sonho divino” – diz a letra.

Pela manhã, Cooper acorda sem Diane. Está em um outro motel.

Digamos que esta já é uma outra dimensão. A dimensão do sonho, talvez.

Ele encontra um recado de Linda para Richard. Caramba: quem são?

Talvez Diane e Coop em outro mundo.

Teria mais dez questões como essa a formular.

Twin Peaks é uma experiência de impotência intelectual, disse Alcir Pécora (ou entendi que tenha dito isso…). Porque o mistério sempre é maior do que a compreensão.

Porque precisamos falar com outros, trocar. Cada um fica com um fragmento.

Minha hipótese central é que, quando vamos ao cinema (ou ficamos em casa vendo um filme, tanto faz) nós vamos atrás de um mundo que se abre a nós, com regras mais ou menos fixas.

Não é o que faz David Lynch?

Vamos ao final de Twin Peaks: Dougie sai do coma, volta a ser (ou passa a ser) Dale Cooper de novo; alguém observa que o FBI está chegando. Ele responde: “Eu sou o FBI”.

Ah, eis aí o nosso herói de seriado.

E o menino que bota uma luva, não consegue tirá-la, adquire com isso um supersoco?

Eis o filme de super-herói encontrado.

Mas Lynch dá a corda e puxa a corda.

Há universos alternativos, mas nenhum universo alternativo é tão real quanto o sonho.

Real e diversificado.

Bem, o que não é sonho: a bomba atômica.

Sim, a fonte de todo o mal está ali.

Ela está na base de Twin Peaks, de nosso mundo, de seu amor à autodestruição.

Ela está, tutelar, na parede da sala do FBI ocupada pelo chefe Gordon Cole (David Lynch em pessoa).

Do outro lado, a foto do outro tutor: Franz Kafka.

Mas eu entrei aqui num universo alternativo.

Eu queria dizer é que Lynch nos abre um mundo de ficção, de fantasia, de sonho, como o que procuramos no cinema.

Num segundo momento, no entanto, ele nos reenvia esse sonho de volta, como se o jogasse na cara como enigma e dissesse: eis aí o seu sonho, eis aí o seu mundo.

Em suma: diante de Twin Peaks o espectador é co-autor do filme, menos pelo entendimento direto quanto pelas intuições que o movem. Quando falamos do filme, quando pensamos nele, são tantas as hipóteses, os desvãos em questão, que é de nós mesmos que falamos, nós mesmos que somos pensados.

O único outro cineasta que trabalhava assim: Abbas Kiarostami.

Dos filmes deles só tiramos o que lhes damos.

Não são filmes de autor. São filmes de espectador.

(talvez não seja um acaso que o último filme de Abbas termine no meio de uma ação, quando uma pedra é jogada na janela da casa do velho professor, e em David a série acabe com o grito de pavor de Laura: histórias sem fim, ambas).
Fonte: https://cantodoinacio.wordpress.com/2017/09/09/twin-peaks-ainda/

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