“Guerra do Paraguay”, hoje e sempre

guerra

Outro dia eu pergunto ao Sérgio Silva, da Cinemateca e dos Filmes do Caixote: – E o filme do Rosemberg, não vai entrar nunca?

E ele: O “Guerra do Paraguay”? Já entrou.

Eu: – Como entrou? Não fiquei sabendo de nada.

Ele: – Entrou. Ficou duas semanas no Lasar Segall.

Eu: – Lasar Segall. Na salinha do museu? Então não entrou.

Ele: É. Mas foi isso.

Em outras palavras: quem quiser assistir a esse belíssimo filme agora o jeito será encomendar na Cavídeo.

Endereço: Rua Voluntários da Pátria, 446 loja 35ª – Botafogo – RJ.

Quem procurar por Cavideo na internet encontrará mais precisões.

O fato é o seguinte: “Guerra” é um desses filmes de que qualquer país se orgulharia com exceção, claro, do Brasil, essa cloaca embrutecida em que nos transformamos (e agora também ensandecida).

Trata-se de um monumento pacifista filmado em míseros seis dias em que a atriz Patricia Niedermeier faz e acontece, ao longo de planos longos, de uma movimentação de câmera precisa, elegante, eficiente (nunca esteticista), isso sem desmerecer Ana Abbott e Alexandre Dacosta, os demais atores. E a produção barata, baratíssima, de Cavi Borges _que se afirma cada vez mais como o Roger Corman brasileiro.

É talvez culminância da obra de Rosemberg, talvez por harmonizar tão suavemente a razão e o coração. Uma vergonha que isso não tenha estreado em São Paulo. Mais uma prova de que é preciso encarar a necessidade de uma legislação para a ocupação de salas de cinema (coisa que o mundo ainda civilizado tem).

Transcrevo abaixo o texto que escrevi para a Folha caso o filme estreasse. Vai aí abaixo. Mandei 5 estrelas, claro.

“A Guerra do Paraguai não é apenas uma guerra. É antes um estado de espírito. Talvez seja este o conceito que move “Guerra do Paraguay”, o notável filme de Luis Rosenberg. A guerra não está no tempo que conhecemos (1865-1870).

Onde, então? Numa estrada deserta por onde um grupo de artistas – mulheres – puxa uma pesada carroça. É ali que encontram um soldado que retorna da guerra, orgulhoso da vitória, das medalhas, de seu caráter guerreiro.

As atrizes desde logo se mostram pouco disposta a engolir essa. Para ela a guerra é destruição e morte. É em torno dessa oposição que se desenrolará o drama, ou o diálogo, se se prefere, ou ainda o embate entre guerra e paz, arte e militarismo, vida e morte, masculino e feminino, eros e thanatos.

Pois é disso que se trata. Das três atrizes, uma morre (a mãe). Restam uma que representa a razão. Quanto à segunda, reduzida a grunhidos, não parece significar a desrazão, mas alguém que está além da razão. A primeira raciocina, lembra as frases do seu métier, interpreta: no fundo é uma coisa só. A segunda reage com uma espécie de desespero artaudiano.

A tudo isso o soldado opõe a lógica um tanto limitada do militarismo (mas também pode-se pensar na ideia de segurança): um diálogo de surdos, não é difícil deduzir.

O filme responde, de certa forma, à observação feita por Glauber Rocha a Rosenberg diante de “A Batalha do Avaí”, a tela monumental de Pedro Américo: “A guerra não terminou em 1870, mas em 1964.” Ou seja, com o triunfo do militarismo no Brasil.

À formidável concepção do filme corresponde uma mise-em-scène precisa, como há muito não se vê entre nós. Apenas planos-sequência, feitos quase sempre com câmera na mão, o que fornece ao filme uma admirável mobilidade. Menos admirável, no entanto, do que o trabalho de câmera, em que mal se sentem os tremidos característicos desse procedimento.

Uma formulação econômica também belíssima, pois todo o espaço dessa “Guerra” resume-se a uma estrada e um bosque, locais do encontro.

Locação teatral por natureza, onde o autor trabalhará sobre o espaço apenas pela movimentação dos atores e do aparelho de câmera.

Mas local em que ele deixará que o tempo escorregue sutilmente do passado ao presente, de modo a captar o fenômeno da guerra em sua natureza atemporal. Não é do Paraguai, essa guerra, mas do Paraguay: um enfrentamento entre o instinto vida e o instinto de destruição (ou morte), entre força e razão, conhecimento e barbárie. Não é preciso ir mais longe para notar a atualidade aguda e dolorosa deste filme.”

Fonte: https://cantodoinacio.wordpress.com/2017/08/25/guerra-do-paraguay-hoje-e-sempre/
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