A cara do Brasil

 

gabriel-e-a-montanha-de-fellipe-barbosa-0

Cena do filme ‘Gabriel e a montanha’, de Fellipe Barbosa (Foto: Divulgação)

 

O Eduardo Valente lançou uma questão mais que interessante sobre filmes que parecem (ou não) ser brasileiros. Que têm ou não a cara do Brasil. Na verdade, relançou. Essa é uma discussão que vem de longe, que esteve na base da criação do Cinema Novo.

Mas como resolvê-la hoje é um enigma. A primeira coisa que me veio à cabeça foi uma declaração (ou entrevista, já não lembro), do Jorge Luis Borges, em que, quando ele é acusado de não ser um escritor argentino, ele responde: “Eu não devo ser mesmo. Os argentinos adoram Paris, e eu prefiro Londres”.

O que designa a nacionalidade de uma imagem?

O filme que mais representa o Brasil, desde “Aquarius”, que é “Gabriel e a Montanha”, não tem um mísero plano rodado no Brasil.

Existem, é claro, esses filmes que querem parecer outra coisa que não brasileiros.

Não acredito que o filme do Selton Mello entre nessa categoria. Se tivesse de escolher uma eu diria que está mais perto da “qualité brésilienne”. Quer dizer: filme de entretenimento, porém de “bom gosto”, “bem feito”, digno, com história um tanto edificante etc. etc.

Esse sobre o João Carlos Martins me parece mais um remake do “Appassionata” em versão “baseado em fatos reais”. Digo pelo trailer. Não vi o filme.

O Anselmo Duarte tinha uma boa história (talvez verdadeira, talvez não, à maneira das boas histórias dele; em todo caso, essa tem tudo para ser verdadeira): ele vai a Cannes no ano do filme do Marcel Camus, o “Orfeu Negro”, que ganha a Palma de Ouro, e então pensa: “ah, então é isso que eles querem ver”.

Quer dizer, existe uma cisão profunda entre aquilo que, do Brasil, interessa aos espectadores estrangeiros ver e aquilo que, do Brasil, interessa aos brasileiros.

No tempo do Ince, o João Carlos Martins seria catalogado na categoria “vultos nacionais”. Era um momento de afirmação da nacionalidade, já se vê. Hoje uma visada desse tipo não tem nem deixa de ter a cara do Brasil. É uma caipirice só, mas, também, uma tentativa de atrair esse público mais rico, mais que se imagina europeu, para o cinema.

Por fim, existe um correspondente (cito de memória, o post já sumiu) que me pareceu identificar “filme brasileiro” a algo que se distingue do entretenimento. Não consigo entender esse tipo de ideia. Como assim? Quer dizer que a pessoa acha que eu vou assistir um filme do Antonioni ou do Glauber ou do David Lynch só pra me aborrecer?

Com isso eu não consigo estar de acordo mesmo.

De todo modo, minha ideia sobre isso é que hoje existem filmes contemporâneos e filmes que, por excesso de preocupação (comercial ou artística), presunção ou modéstia, falta de talento ou capacidade de olhar, não conseguem mais ver nada. Vêem o que já foi visto. Aqui ou fora daqui.

O irritante em “Malasartes” não é a contaminação do “nacional” (e nem tão nacional assim) pelos efeitos especiais. É o fato de que isso já foi feito, é um repertório que vem do Harry Potter, vem do Senhor dos Anéis, está mais que gasto.

Enfim, é mais ou menos assim que, bem resumidamente, vejo essa história que, no fundo, remonta a Osvald vs. Mario de Andrade, a Candido vs. Haroldo, a Glauber vs. Khouri e por aí vamos. Nunca perde a atualidade.

Fonte: https://cantodoinacio.wordpress.com/2017/08/27/a-cara-do-brasil/
Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s